Um estudo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aponta que o empreendedorismo feminino no Brasil apresentou sinais de recuperação. O número de mulheres à frente de um negócio no país fechou o quarto trimestre de 2021 em 10,1 milhões. Cada vez mais as mulheres criam coragem para começar um negócio. Mulheres que driblam dificuldades para empreender e encarar o mercado. A empreendedora, digital influencer e rainha de bateria Sávia David é mais uma que decidiu enveredar pelo caminho empresarial. Um sonho que tinha desde pequena, quando a realidade era bem dura.
“Tive uma infância pobre em São João de Meriti, município da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Minha mãe catou xepa no Ceasa muitas vezes para poder matar minha fome a fome da minha irmã., mas nunca nos faltou amor. Eu lembro que a gente entrou numa casa com um cômodo só e aí era muito louco porque era igual àquela música: ‘Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Era bem isso. Uma porta com a madeira, que tinha um pau segurando, quando chovia molhava tudo. Eu cresci vendo a minha mãe passando esses apertos, mas posso dizer que minha mãe é uma referência de mulher para mim porque mesmo com todas essas dificuldades ela nunca deixou faltar amor. Minha mãe era doméstica, trabalhou em fábrica, depois foi trabalhar como ambulante embaixo do metrô de Pavuna. Ela vendia roupa, depois montou uma barraquinha de cachorro-quente na porta de casa. Quer dizer, minha mãe sempre foi empreendedora, acho que desse exemplo e talvez do DNA venha essa vontade de empreender”, conta.
Mas do desejo para a prática foi um longo caminho. Sávia foi bolsista em uma escola na Pavuna no ensino fundamental. No ensino médio estudou em escola pública e depois conseguiu uma bolsa para fazer faculdade em licenciatura em Educação Física. Paralelo a isso e para conseguir se manter, trabalhou em loja e na própria faculdade que cursava licenciatura em Educação Física.
“Depois voltei e fiz bacharelado em Educação Física. E fiz minha pós-graduação em Metodologia do Treinamento e Personal Trainer. Depois que engravidei da minha primeira filha, voltei para os bancos da faculdade e me tornei bacharel em Direito. Sou coach também, formada pela IBC (Instituto Brasileiro de Coaching)”.
Sávia é casada e mãe de um casal, Laura e Lorenzo. Toda sua história sempre foi marcada por um gingado especial, o samba. Apaixonada por dança, em casa sempre teve pagode e samba de raiz, mas a relação definitiva com o ritmo chegou na fase adulta.
“Foi uma aluna quando dava aula de Personal que me apresentou. Eu lembro que ela falou ‘Poxa professora, vai lá me ver na apresentação e tal’. Então eu fui prestigiá-la e conheci uma diretora da Beija-Flor. E foi aí que eu me apaixonei definitivamente pelo samba e conheci a Beija-Flor. Até fui parar em São Paulo através da Beija-Flor, conheci meu marido através da Beija-Flor. A Beija-Flor faz parte da minha vida, da minha história”.
Mas o samba nunca foi uma fonte de renda. A relação é de amor e prazer.
“Eu trabalhei um ano apenas como mulata da Beija-Flor, fazia show pela escola, mas nunca levei o samba como minha fonte de renda. Escutar aquele ritmo é uma coisa que vem de dentro para fora, sabe? É arte para mim. Eu expresso os meus sentimentos através da dança. Através do samba. Diferente da minha fonte de renda, o samba eu preciso para ser feliz”.
Acreditando sempre que a mulher tem suas muitas versões, foi que decidiu empreender o @loftscopacabana. O loft é uma forma de hospedagem charmosa, que reutiliza antigos imóveis comerciais, depósitos e/ou galpões. Esse tipo de moradia surgiu em Paris e Nova Iorque. Após se popularizar nas grandes cidades internacionais e ser considerado como uma moradia alternativa, muitas pessoas começaram a levar em consideração escolher um loft como opção de moradia e para temporadas de viagens.
“O @loftscopacabana surgiu de uma necessidade da pandemia. Eu sou uma pessoa que não para quieta. Em nenhum momento nesse lockdown parei de viajar. Quando estourou a pandemia, que fechou tudo, fui morar 4 meses na Ilha Grande. Peguei meus filhos, meu marido e fomos para aquele pedaço do paraíso. Lá eu aluguei um loft e gostei muito pela segurança que oferecia para o momento. Ao sair de lá, eu fui alugando outros lofts. Quando vou para São Paulo, o hotel que fico é estilo loft. Tem cozinha, sala. Eu pensei: pronto, é isso! Se eu tenho essa necessidade, outras pessoas também têm. É uma forma de você viajar e não se expor. É como se você desse a continuidade da sua rotina de casa, nas férias”.
São dois lofts em Copacabana, bairro tradicional carioca que atrai turistas de todo o mundo. Atualmente o negócio corresponde a maior parte da renda e, a cada dia, ela procura fidelizar a clientela que só aumenta.

“Vale muito o custo-benefício, além de não oferecer preços altos, como o caso dos hotéis de luxo, existe o aconchego, a localização privilegiada, a privacidade e o fácil acesso a tudo: mercados, pontos turísticos, bancos e bares. É uma ótima escolha para a família e, principalmente, para quem quer se sentir em casa, mesmo estando de férias ou aproveitando um feriado”.
A diva do Carnaval e rainha de bateria da Unidos de Vila Maria, de São Paulo, entre as suas muitas versões, também é madrinha da ONG Paizão, em Itaguaí.
“Sou uma pessoa que sempre fui muito movida a emoção. Eu lembro que na escola que estudei por muito tempo, tinha essa coisa de gincana, a equipe que juntasse maior número de alimentos não perecíveis, iria ganhar um passeio para o sítio, por exemplo. E aí eu sempre era a líder da equipe, a gente pegava na vizinhança, e nos comércios, os alimentos. Então sempre fui muito ligada a isso e me casei com uma pessoa que também é muito ligada em projetos sociais. O meu marido é presidente de uma creche educandário. Acho importante doar. E não é só dar o dinheiro, mas doar o seu tempo, a sua atenção e seu carinho. Eu tive essa oportunidade na ONG Paizão. Me fizeram o convite e fiquei muito honrada em poder ser madrinha desse projeto. Lá eu vou ter a responsabilidade de palestrar. De ser um canal de bate-papo, de acolhimento para mulheres jovens e mulheres que acham que porque tiveram filho precocemente, porque não tem condições financeiras, não vão ter oportunidade de mudar de vida. Estou muito feliz em ser essa referência para as meninas da comunidade de Itaguaí. Vou poder passar para elas a minha trajetória, minha experiência. Se vim do morro, consegui, venci, elas também podem. Eu não precisei me prostituir, não precisei, roubar, matar, para conseguir ter uma vida melhor. Basta força de vontade, perseverança e jamais deixar de sonhar”, conclui.
Faça um comentário