Erick Bretas: Precisamos falar sobre Bolsonaro

Texto de Abril de 2017, mas completamente ATUAL

Precisamos falar sobre Bolsonaro.

A sério. Nesses tempos de polarização política, ocupar os extremos é um bom negócio e Bolsonaro entendeu isso muito bem. Quanto mais ele cospe seus absurdos, mais arrebanha seguidores nas redes sociais, o território onde o fenômeno “bolsomito” nasceu e vem se espraiando. Não podemos mais tratá-lo como um meme.

Bolsonaro é o político preferido de quem detesta política. O descrédito do triunvirato PT-PSDB-PMDB é o combustível que o levou a aparecer nas pesquisas como uma real possibilidade de poder em 2018. Como tudo indica que essa fadiga com a política tradicional só tende a aumentar, o caminho para ele está relativamente aberto. Acabamos de assistir a esse filme nos Estados Unidos. Não podemos negligenciar o que estamos vivendo no Brasil.

É preciso confrontar Bolsonaro em suas ideias. Na palestra na Hebraica, no Rio de Janeiro, o deputado afirmou que não vai demarcar terras indígenas e quilombos. Que vai trabalhar para que todos os brasileiros tenham uma arma. São assuntos que extrapolam os limites do poder presidencial. Mudar o estatuto do desarmamento depende de aprovação do Congresso. A demarcação de terras indígenas e quilombos é de responsabilidade do executivo, mas o tema está previsto na Constituição de 1988. Um governo que cruze os braços diante dele vai ser contestado na Justiça. Mudar políticas públicas é possível, mas tem que se dar por meio do diálogo – um conceito que Bolsonaro desconhece.

Seus adoradores não entendem isso. Acham que presidentes têm poderes imperiais, que tudo se resolve na canetada. Não é assim. O Brasil é uma democracia funcional com sistemas de pesos e contrapesos. Congresso. Supremo. Ministério Público. Tribunal de Contas. Controladorias. “Ah, que bobagem, isso aí está nas mãos de políticos ladrões. Vamos botar tudo abaixo.” Não, não vamos. Já passamos dessa fase. Os militares não vão embarcar em aventuras autoritárias. Bolsonaro não fala pelas Forças Armadas. O Exército brasileiro se modernizou nos últimos 30 anos, entende seu papel como salvaguarda da Constituição e não vai mudar isso por causa de um ex-capitão de carreira controversa.

Um governo Bolsonaro seria assim: um presidente inabilidoso, incapaz de se movimentar num ambiente hostil, sem base no Congresso e sem vocação para qualquer tipo de articulação política. Bolsonaro não seria um novo Médici, nem mesmo um novo Figueiredo. Seria algo entre uma Dilma e um Jânio.

Até agora o combate a Bolsonaro só tem vindo da esquerda e isso não é bom. Sua fala odiosa na palestra da Hebraica dizendo que fez quatro filhos homens, mas na quinta vez ´fraquejou e veio uma mulher´ é algo que ofende a todos. Seu ódio às minorias, seu racismo – expresso na piada de que um quilombola poderia ser pesado em arrobas –, sua misoginia, seu descompasso com o século XXI devem ser combatidos pela esquerda, pelo centro e pela direita esclarecida. Bolsonaro não é apenas o antípoda de Jean Willys. É preciso que outras vozes se levantem contra ele. Antes que seja tarde.

Erick Bretas é jornalista

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